Esporte e Política II – Olimpíadas


RENAN ARAÚJO

Se as Copas do Mundo estão estreitamente ligadas à política como pudemos ver no primeiro post desta série, os Jogos Olímpicos também não ficam para trás. Em uma competição que envolve um número ainda maior de esportes, competidores e países, a influência da política se mostrou ainda mais forte e mais direta do que ocorria nas Copas. Vamos conferir alguns desses fatos.

DA MODERNIDADE AO NAZISMO

As primeiras Olimpíadas modernas aconteceram em Atenas, na Grécia, em 1896 recriadas pelo Barão de Coubertain. Seu principal objetivo era que as pessoas esquecessem dos conflitos políticos e guerras e, no período olímpico, se dedicassem exclusivamente aos jogos em um clima harmonioso. Porém, os Jogos de 1916 não ocorreram por conta da Primeira Guerra e os de 1940 e 1944 não ocorreram devido à Segunda Guerra.

Em 1936, os Jogos foram na Alemanha, já com Hitler e o nazismo no poder. A ameaça de uma segregação racial culminou na ameaça dos Estados Unidos de competir, porém a promessa não se concretizou e apenas a Espanha ficou de fora (por conta também da Guerra Civil em seu país). O boxeador Eric Seelig e o tenista Daniel Prenn, ambos alemães, porém, foram impedidos de competir pela Alemanha por serem judeus.

Tocha é conduzia na “Olimpíada Nazista” de Berlim em 1936 (Arquivo Folha)

A intenção era produzir os maiores jogos da história e explicitar a grandeza do regime nazista. Para os Jogos, até campanhas anti-semitas foram suprimidas. Na cerimônia de abertura praticamente todas as delegações fizeram a saudação nazista aos olhos do Fuhrer. Nos jogos, o negro americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro no atletismo. Hitler deixou o estádio de atletismo mais cedo e não viu outro negro ganhar: o americano Cornelius Johnson (e não Owen como muitos dizem). Para não correr o risco de parabenizar nenhum negro, Hitler preferiu não dar os parabéns a nenhum dos vencedores dos Jogos. Porém, no fim quem celebrou foi o país anfitrião, que liderou o quadro de medalhas com 38 de ouro.

GUERRA FRIA QUE FERVEU OS JOGOS

Nos Jogos de Helsinque, Finlândia, em 1952, a União Soviética competiu pela primeira vez e devido ao contexto de Guerra Fria, produziu-se uma divisão entre as delegações com ideologias opostas. A China também boicotou o torneio por conta do reconhecimento do Taiwan pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e só voltou 20 anos depois.

Em 1956, em Melbourne, na Austrália, o Egito, o Iraque e o Líbano se recusaram a participar por conta da invasão de Israel ao canal de Suez. Israel, envolvido em mais um capítulo da guerra árabe-israelense, levou apenas três atletas, já que precisava formar o seu exército. Holanda, Espanha e Suíça também não participaram em represália à invasão soviética à Hungria. A invasão também causou problemas nas competições. Atletas soviéticos e húngaros trocaram socos em uma partida de pólo aquático e a polícia precisou intervir.

Nos jogos da Cidade do México, em 1968, os negros americanos Tommie Smith e John Carlos ficaram em primeiro e terceiro lugares, respectivamente e, no pódio, fizeram a saudação com o braço dos Panteras Negras, símbolo do movimento Black Power contra o racismo. Acabaram sendo suspensos dos Jogos.

Gesto do movimento Black Power, contra o racismo nos EUA nos Jogos de 1968 no México (AP)

Já em 1972, em Munique, Alemanha aconteceu o fato mais chocante. Na madrugada do dia 5 de setembro, oito terroristas membros de uma organização palestina invadiram a Vila Olímpica, mataram dois atletas israelenses e mantiveram nove como refém. Eles pediam a libertação de 200 árabes mantidos como reféns em Israel. Mas com o ataque da polícia o fim foi trágico e nove reféns, cinco terroristas, um policial e um piloto acabaram mortos. Mais uma conseqüência do conflito no Oriente Médio. Apesar do episódio, a competição prosseguiu até o fim.

Polícia busca sequestradores palestinos em plena Olimpíada de Munique em 1972 (AP)

Em 1976, um novo boicote político. 22 países africanos mais o Iraque, Líbano e Guiana deixaram a competição porque não concordavam com a participação da Nova Zelândia. O país da Oceania havia realizado uma excursão pela África do Sul, país que foi banido das competições esportivas por conta do regime do apartheid.

Mas, a maior ausência de países ocorreu em Moscou, em 1980. Com a invasão soviética ao Afeganistão em 1979, o presidente americano Jimmy Carter ordenou o boicote dos EUA aos Jogos. Outros 61 países também deixaram de competir. A tristeza pela ausência dos países foi representada pela lágrima do ursinho Misha, mascote dos Jogos, na cerimônia de encerramento.

Olimpíadas de Moscou em 1980não contaram com a presença de mais de 60 países (Getty Images)

Em represália ao boicote capitalista, a União Soviética e mais 14 países do bloco socialista deixaram de ir à competição em Los Angeles, em 1984. Os Jogos realizados pelos americanos foram os primeiros a serem totalmente financiados pela iniciativa privada e apresentaram grande tecnologia, ao melhor estilo de disputa em plena Guerra Fria

PROBLEMAS COM OS VIZINHOS

Em 1988, em Seul, a Coréia do Norte não conseguiu sediar as Olimpíadas ao lado da Coréia do Sul e não competiu. Seguiram o país as nações Albânia, Cuba, Etiópia e Nicarágua.

Em 1992, Barcelona, na Espanha, 169 países participaram e muitos que ficaram de fora por questões políticas, como a Albânia, Estônia, Letônia e Lituânia, Cuba, Coréia do Norte e África do Sul, voltaram a competir. Apenas a Iugoslávia, punida por agressão à Croácia e à Bósnia não pôde competir na disputa por equipes.

Em 2008, as Olimpíadas de Pequim, na China, despertaram grande desconfiança por parte de muitos países por conta da política utilizada pela China. Embora intitulada como uma democracia, a falta de liberdade, a censura e a violência em relação a questões como a separação do Tibete (área que não aceita o domínio chinês) ainda eram pontos muito presentes no país, o que despertaria um abuso aos direitos humanos. Mas o que a China mais quis e conseguiu foi mostrar todo seu progresso e poder de uma das nações com uma das economias mais fortes do mundo.

Protesto na China da ONG Repórteres sem fronteiras contra a censura no país

Durante os Jogos também estourou mundialmente a questão da Ossétia do Sul. A região da Geórgia, que deseja ser independente, provocou o conflito entre tropas russas e georgianas aproveitando a distração do público no período dos Jogos.

A tenista belga Justine Henin, que já foi campeã olímpica, disse antes das Olimpíadas de Pequim a respeito da situação política da China. “Esporte e política devem ficar separados. É claro que estou preocupada com a política que cerca os Jogos. Mas vou lá para o jogo de tênis, não para o jogo político”

http://www.bbc.co.uk/portugueseafrica/news/story/2008/07/080715_olimpiadaspoliticafil.shtml

http://www.joaoleitao.com/viagens/2008/03/19/jogos-olimpicos-como-arma-politica-boicotes-historicos-aos-jogos-olimpicos/

http://olimpiadas.uol.com.br/2008/historia/

http://german.about.com/library/blgermyth10.htm

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Publicado em 21 de janeiro de 2012, em Futebol Nacional. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Saudações

    Realmente, os grandes eventos esportivos tem passado por certas provações, que se acercam desde a escolha das sedes (muitas vezes severamente criticadas) até o escopo inicial sendo totalmente alterado, seja por questões políticas ou por razões econômicas.

    Entretanto, algumas notas precisam ser feitas sobre as edições olímpicas de 1972 e de 1980.

    Em Munique, o trágico acontecimento com a delegação israelita chocou todo o planeta. Houve sim a tentaiva de paralização dos Jogos, sendo que algumas nações chegaram à abandonar o evento, voltando atrás desta decisão horas depois. Dali em diante, a bandeira olímpica no Estádio de Munique feicou à meia altura, até o encerramento daquela edição do movimento olímpico.

    No que diz respeito aos Jogos de 1980, a imagem usada não corresponde nem à cerimônia de abertura e nem ao ceriomnial de encerramento daquela edição do movimento olímpico. O estádio possuía uma pira olímpica muito maior, a tradicional inscrição “Citius, Altius, Fortius” aparecia em dois lados do estádio, sendo um deles com tal frase em russo, além do que os ideias políticos soviéticos foram mínimos, não apenas nos cerimoniais como também durante toda aquela Olimpíada. Acredito que houve um grande equívoco por parte de quem usou de tal imagem para representar a aprte do texto sobre Moscou’1980.

    No geral, o texto está muito bom, mais alguns aspectos não poderiam ser deixados de lado.

    Até mais!

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