Uma Odisseia no Palestra Itália


Por Paulo Semicek

37 minutos do primeiro tempo. Até aquele momento havia equilíbrio entre os dois times; uma vitória para cada lado, o que levou a um terceiro jogo, para definir o campeão da Copa Mercosul. O Vasco tinha um elenco melhor, e que dali a um mês seria campeão novamente. Mas o Palmeiras tinha uma parceria de muitos anos com a Parmalat, e que rendeu ao clube dois títulos brasileiros, uma Copa do Brasil e uma Libertadores.

Foto: Arquivo/Gazeta Press

O local da final daquela Copa Mercosul era o Palestra Itália, casa palmeirense, e que estava lotada. A tendência era que o Palmeiras impusesse seu jogo diante da torcida, o que demorou, como já foi dito, 37 minutos para acontecer. Ali, de pênalti, o ídolo paraguaio Arce marcou o gol. Mas não deu tempo de comemorar. Por que? Um minuto depois, Magrão pegou um rebote de cabeça: 2 a 0. Excelente vantagem, era só manter e, com o apoio de sua apaixonada torcida, aquilo era bem possível. Mas os palestrinos não seguraram o resultado…pois marcaram o terceiro! Tuta, artilheiro, brigador, ampliou a vantagem aos 45 da etapa inaugural.

Tuta comemora a vantagem palmeirense (Foto: Daniel Augusto Jr.)

Festa nas arquibancadas alviverdes! Alegria, sem dúvida, afinal 3 a 0 só no primeiro tempo era demais, avassalador. Ali podiam se encaixar vários ditados populares da bola: ‘’ Bola pro mato que o jogo é de campeonato’’, ‘’ Esse time joga por música’’,  e até alguns versos do hino palmeirense: ‘’ Defesa que ninguém passa’’, ‘’ Quando surge o alviverde imponente…’’, enfim era uma ótima vantagem de um ótimo time.

O segundo tempo começou com essa aura gloriosa sobre o Palmeiras. Até que aos 14, Romário diminuiu para os vascaínos. Mas não se preocupem, ainda havia uma grande vantagem. O Vasco vai entrar em desespero, vai abrir espaços e o Palmeiras pode aproveitá-los. Imaginem se Júnior Baiano fosse expulso, como acontecia com ele frequentemente…peraí, ele foi expulso! Segundo amarelo e depois o vermelho. Agora sim, ninguém tira essa do Porco!

Mas surgiu uma pulga atrás da orelha palestrina aos 24 minutos. O árbitro marcou um pênalti até certo ponto polêmico para o Vasco. Romário bateu e diminiuiu a até então grande vitória palmeirense.

– Não falem besteira, não vão empatar. Ainda estamos ganhando – disse um palmeirense comum.

–  Será? Vamos aí então…Bora, Vascão! – falou um vascaíno comum.

Foram dezesseis minutos de agonia para os dois torcedores. Será que o Vasco empata? Será que o Palmeiras se segura? Pressão carioca. O Palmeiras tentava se segurar, mas algo sobrenatural parecia levar aquele time cruzmaltino para frente. O Palmeiras rezava para o tempo passar rápido. Não passou, chegou lento até os 41 minutos, quando saiu um gol.

Juninho Paulista entrou na área e fez o terceiro gol do Vasco da Gama. Inacreditável. A incredulidade tomou conta dos dois lados. Como era possível uma vitória larga virar um empate?  E de que maneira uma derrota humilhante podia resultar numa possível disputa de pênaltis. Mas faltavam ainda sete minutos, considerando os acréscimos, para aquela partida acabar. A diferença entre os rivais agora era que a incredulidade era um combustível para o Vasco, mas um anestésico para o Palmeiras. Times e torcidas estavam em sintonia  agora. Era tudo ou nada. E faltando um minuto, 60 segundos para saber se haveriam penalidades ou não, a resposta veio. E veio em um rebote dentro da pequena área. Pequena área, pequeno jogador.

Romário marcou o quarto gol do Vasco. Final da Copa Mercosul de 2000: Palmeiras 3 x 4 Vasco. Club de Regatas Vasco da Gama campeão. Inacreditável. Milagre. Virada histórica. Vexame verde. Absurdo. Chame do que quiser, todos os adjetivos acima são válidos, e quem assistiu aquele jogo, seja vascaíno ou palmeirense, estivesse no estádio ou não, ouvisse pelo rádio ou assistisse pela televisão, não importa, quem acompanhou aquela noite quente de dezembro não se esquece daquele jogo.

Romário comandou a histórica virada vascaína (Foto: Arquivo/Jornal Extra/RJ)

Muita coisa mudou depois daquela noite. O Vasco foi campeão da Copa João Havelange um mês depois, mas entrou em decadência, chegando até a jogar a segunda divisão nove anos depois. Para o Palmeiras, o inferno veio mais cedo: caiu para a série B em 2002. Isso talvez explique o fato de esse jogo ser tão inesquecível para os dois torcedores: foi o último grande espetáculo protagonizado pelos dois clubes. Uma decisão. Uma virada. Um campeão e um vice. Pena que só em reportagens esporádicas e vídeos na internet conseguimos ver um jogo desses.

Confira alguns vídeos deste incrível jogo:

Vasco: Hélton, Clébson, Odvan, Júnior Baiano, Jorginho Paulista, Nasa (Viola), Jorginho (Paulo Miranda), Juninho, Juninho Paulista, Euller (Mauro Galvão), Romário. Técnico: Joel Santana.

Palmeiras: Sérgio, Arce, Galeano, Gilmar, Tiago Silva, Fernando, Magrão, Flávio, Taddei, Juninho, Tuta (Basilio). Técnico: Marco Aurélio.

Gols: Arce (Palmeiras 37/1ºT), Magrão (Palmeiras 38/1ºT), Tuta (Palmeiras 45/1ºT), Romário (Vasco 14/2ºT), Romário (Vasco 24/2ºT), Juninho Paulista (Vasco 41/2ºT), Romário (Vasco 48/2ºT).

Expulsão: Júnior Baiano.

Árbitro: Márcio Rezende De Freitas.

Estádio: Palestra Itália (Parque Antarctica), São Paulo (SP).

Data: 20/12/2000.

Público: 29.993

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Publicado em 8 de abril de 2012, em Especiais, Futebol Nacional e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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