Londres 2012 – Campanha brasileira: motivo de decepção ou orgulho?


por Renan Araujo

Após a Olimpíada de Londres uma discussão virou centro de muitas polêmicas: o desempenho do Brasil nos Jogos foi satisfatório? Se por um lado, o Brasil conseguiu o seu maior número de pódios em uma única edição com 17 no total (três medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze), por outro diversos favoritos perderam suas medalhas, enquanto outros pouco prestigiados ganharam. O fato reacendeu discussões quanto às condições de treinamento dos atletas, os investimentos na área esportiva e até a preparação psicológica.

O boxeador Esquiva Falcão foi uma das maiores surpresas do Brasil em Londres. (Foto:AFP)

O que foi visível foi que esportes como o judô (que conseguiu a meta de quatro medalhas), boxe (com três medalhas), o pentatlo moderno (bronze inesperado de Yane Marques) e a ginástica (com uma medalha inédita) cumpriram o seu papel e surpreenderam quanto à possibilidade de se crescer ainda mais se houvesse maior investimento (com exceção do judô os demais esportes têm baixos orçamentos). Por outro lado, a natação (uma prata de Thiago Pereira e um bronze de Cesar Cielo), o atletismo (sem medalhas) e o futebol (uma prata no masculino) são alguns dos esportes com maior investimento, mas que não corresponderam às expectativas.

Por isso, devem ser muito exaltadas medalhas, mesmo que de prata ou de bronze, de atletas que superaram todas as dificuldades para competir e chegar a um pódio olímpico como Adriana Araujo, Esquiva e Falcão Yamaguchi no boxe, Yane Marques no pentatlo moderno, e Scheidt e Prada na vela. Mas, também não são apenas os que ganham medalhas que merecem ser celebrados ou chamados de heróis. Todos os atletas brasileiros que se esforçaram merecem os parabéns, mesmo que o resultado não tenha sido aquele esperado. Apenas o fato de chegar a uma Olimpíada em esportes com pouco estímulo já é um motivo para comemoração. Mas isso também não significa que os atletas devam se acomodar. É preciso continuar treinando e contar com uma série de incentivos para acreditar que é sempre possível chegar ao topo.

Investimentos e política esportiva

Em relação a Pequim 2008, houve um aumento de 44% na arrecadação da Lei Piva, a principal verba de financiamento do esporte no país. Em Londres os atletas também contaram com toda a estrutura de treinamentos do Crystal Palace, que custou R$11,6 milhões. Apenas o ciclo olímpico (com a arrecadação com a Lei Piva, bolsa-atleta e outros patrocínios ou arrecadações estatais) custou R$2 bilhões de acordo com dados do governo federal.

Crystal Palace, o centro de treinamentos do Brasil em Londres. (Foto: Miguel Medina/AFP)

Mas o desempenho do Brasil, que contou com uma enorme delegação de 259 atletas e foi inferior ao de delegações muito menores, não está relacionado somente ao dinheiro investido no governo federal. Falta investir numa política esportiva que privilegie o esporte desde a educação primária. Muito se fala no sucesso dos Estados Unidos, em que talentos como Gabrielle Douglas e Missy Franklin, com, respectivamente, 15 e 16 anos, ganharam ouros para seu país em sua primeira olimpíada. O esporte deve ser estimulado por meio de bolsas de estudo e premiações e deve estar presente durante todo o período escolar e acadêmico. Olimpíadas Escolares e Universitárias, que hoje são praticamente esquecidas devem receber maior atenção e ser fortalecidas.

É preciso ampliar o esporte ligado à educação, mas não apenas nos grandes centros. É preciso que talentos do boxe, por exemplo, não sejam obrigados a ter que ir necessariamente para São Paulo para treinar com a seleção brasileira. É preciso que atletas como Sarah Menezes, que treinou a vida toda em Teresina, no Piauí, possam exercer seu esporte em sua própria terra e que hajam os famosos “olheiros” para descobrir esses talentos.

O país também precisa produzir e se necessário importar técnicos de qualidade, que saibam orientar seus esportistas no momento de maior dificuldade e possam fazê-los crescer. E o mais importante: é preciso fazer com que todo o dinheiro que o governo federal investe chegue aos atletas de forma efetiva e que não aconteçam casos como o do lutador Diogo Silva, que teve que financiar as viagens para campeonatos de seu próprio bolso. Se for necessário, é preciso que haja uma reformulação nas federações para que os apoios aos atletas aumentem.

E isso deve acontecer não só para as modalidades mais conhecidas como atletismo, natação, vôlei, judô e basquete. Modalidades como esgrima, badminton, pólo aquático, pentatlo moderno, vela, tiro e tiro com arco também merecem atenção, já que parecem estar totalmente abandonadas e praticamente não têm perspectiva de crescimento.

Fator psicológico

Treinar demasiadamente não é tudo. É preciso estar preparado para suportar a pressão e a expectativa de todo um país para chegar ao êxito de uma medalha. Os principais brasileiros favoritos sofreram com isso, já que não foi por falta de talento que o futebol e o vôlei masculino ficaram com a prata, Cesar Cielo ficou com o bronze e Rafaela Silva ficou sem medalha. Eles não devem ser execrados. Todos se esforçaram e se cometeram algum erro nesse sentido deve ser corrigido.

Preparo psicológico foi um dos grandes trunfos do ouro do ginasta Arthur Zanetti. (Foto: Getty Images)

Foi trabalhando o fator psicológico que Arthur Zanetti afirmou que ficou com o ouro na ginástica. Ele não temeu seu adversário chinês, atual campeão mundial, não pensou que seu adversário era melhor e tratou de competir pensando apenas em si próprio.

O brasileiro não pode se intimidar e achar que já é derrotado antes de competir, como dizia Nelson Rodrigues com o complexo de vira-latas. Logicamente, uma maior estrutura, capacidade de treinamentos, bons materiais e uma boa equipe de apoio ajudam a formar uma mentalidade forte, mas mesmo assim, o trabalho psicológico antes de uma grande competição deve ser muito grande.

Para o torcedor é importante valorizar o atleta que chega a uma olimpíada. Muitos nem mesmo conhecem toda a dura realidade de um atleta e por tudo o que ele passou para estar lá. A crítica e a pressão podem ter justamente o efeito inverso e trazer prejuízos aos atletas, já que reforçam o complexo de vira-latas. A memória do brasileiro é conhecida por ser curta. O atleta pode ganhar sempre, mas se falhar uma vez será duramente criticado. Deve-se pensar o que ele fez como um todo e não apenas pontualmente observando seus resultados e observando toda o desempenho do atleta em sua carreira.

Meta para 2016

O governo brasileiro estipulou que nos Jogos do Rio em 2016, o Brasil pode chegar entre os dez primeiros no quadro de medalhas. Nos Jogos de Londres o 10º colocado foi a Austrália, com sete ouros, 16 pratas e 12 bronzes, o que significa dobrar aquilo que o país conquistou em Londres. O fator casa ajuda e é possível chegar nesta meta se houver todo esse trabalho de preparação, investimento, treinamento e estrutura psicológica.

O ministro do esporte Aldo Rebelo espera uma melhora do Brasil para os próximos jogos. (Foto: Justin Tallis/AFP)

O esporte, mais do que uma competição é uma forma de inclusão social. Enxergar o esporte como uma maneira de diminuir a violência, ensinar valores e melhorar a saúde é algo que todo país deve enxergar como prioritário. Ganhar o maior número de medalhas não traz todos esses benefícios sociais, mas aponta que há um investimento grande e que o esporte é levado a sério naquele país. O Brasil já foi muito pior quanto a sua mentalidade esportiva, estamos melhorando, mas ainda há muito o que crescer. Que a prática esportiva seja estimulada não apenas com a presença dos Jogos no Brasil, mas com a presença de grandes atletas, ídolos e estímulos para as novas gerações.

Sobre Jornaleiros do Esporte

Site sobre esportes dos alunos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Email : jornaleirosdoesporte@gmail.com Twitter : @Jesporte Facebook : http://www.facebook.com/#!/profile.php?id=100002390365816

Publicado em 14 de agosto de 2012, em Olimpíadas e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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