O Guru de Dortmund


por Flávio Darin

Hoje finalista da UEFA Champions League, o Borussia Dortmund ressurgiu para o mundo do futebol há pouco tempo. Afundado em uma dívida milionária, Reinhard Rauball, antigo torcedor do clube voltou à presidência para salvar o time que beirava a falência.

(Foto: AP / Divulgação)

(Foto: Imago)

O cenário, era o final dos anos 90. O Borussia era um dos maiores times da Europa, campeão da Champions League e do Mundial Interclubes na temporada 96/97 o clube fazia boas campanhas no Campeonato Alemão, e era visto como o nova potência do continente.

Com o futebol passando por um processo de metamorfose, principalmente fora de campo, alguns clubes passaram a virar empresas, e em outubro do ano 2000 o Borussia Dortmund anunciou a sua entrada na bolsa de valores. Investimentos altíssimos, como o meia tcheco Rosicky o zagueiro Metzelder  e o atacante brasileiro Amoroso, contratado por astronômicos 29 milhões de euros (originalmente 56 milhões de marcos alemães), um verdadeiro absurdo para a época, logo de cara deram premiaram o Dortmund com a salva de prata e o vice na extinta Copa da UEFA na temporada 2001/2002. Movidos pelos bons resultados, os dirigentes do clube se animaram e contrataram ainda mais. Mas, o que ninguém levou em conta, era que se os resultados não aparecessem , as contas não iriam fechar. E foi exatamente o que aconteceu, com eliminações precoces nas competições europeias, e consequentes fracassos na Bundesliga, o clube acumulou dívidas enormes, e na temporada 2004/2005 chegou ao fundo do poço, e estava devendo mais de 170 milhões de euros.  Tendo inclusive recebido 2 milhões de euros por empréstimo do rival histórico da Baviera, o Bayern de Munique,  para pagar sua folha de pagamento. O prognóstico não era nada animador, a dívida do clube crescia cerca de 25 milhões de euros por ano, e as ações que em 2000 eram emitidas por 11 euros, em 2004 valiam menos de 3 euros, uma desvalorização de mais de 80%.

As conquistas fizeram com que o Borussia "desse o passo maior que a perna" (Foto: Getty Images)

As conquistas fizeram com que o Borussia “desse o passo maior que a perna”. (Foto: Getty Images)

A beira da falência, e flertando com o rebaixamento, um velho conhecido do torcedor do Borussia, aceitou a missão quase que impossível de reerguer o time. Reinhard Rauball, advogado e ex-presidente do time em outras duas ocasiões topou o desafio, de herança, os quase 200 milhões de dívida, o aluguel do seu próprio estádio, já as gestões passadas tinham vendido o Westfalenstadion para um fundo imobiliário, que o relocava para o time por 15 milhões de euros por ano, além de uma mal sucedida fábrica de uniformes que produzia os produtos oficiais do time, e que há anos dava mais prejuízos do que lucros. Passo a passo, Rauball começou a limpar o clube, começando pela limpeza do elenco, dispensa / corte de 20% dos salários de todos os jogadores  e apostando na formação de atletas. Mais tarde vendeu o nome do estádio até o ano de 2021, para a Signal Iduna, uma companhia de seguros, e com o dinheiro recomprou o estádio em várias parcelas, que serão pagas até 2017. Posteriormente, passou a malfadada goool.de, empresa que produzia os uniformes do clube,  para frente e assinou com a americana Nike.

No 3o mandato a frente do Borussia, Rauball assumiu o clube endividado e o recolocou na rota dos títulos. (Foto: Menne)

Neste momento, a situação crítica do Borussia Dortmund, se cruzava com a situação também ruim da Bundesliga. Campeonato defasado, médias de público regulares, ingressos caros e um futebol pouco atrativo, recheado de atletas veteranos e estrangeiros. Para problemas parecidos, soluções iguais. Reinhard Rauball, presidente do Dortmund, foi escolhido presidente da Bundesliga, a liga alemã de futebol. Desde então ele é o responsável por uma das maiores reformulações no futebol Europeu, transformando o modelo de gestão da Bundesliga como modelo para todo o mundo. Rauball implementou uma série de regras que impedem milionários do Oriente Médio, Ásia, ou do Leste Europeu de comprar ou gerir um clube alemão. Otimizou os novos e reformados estádios para a Copa de 2006, barateando o ingresso, e trazendo a classe média para dentro do estádio. Mas a principal mudança veio na divisão das cotas de televisão. Recebe mais, quem faz por merecer dentro de campo. O primeiro colocado recebe exatamente 760 mil euros a mais que o segundo, que recebe 760 mil euros a mais que o terceiro, e assim sucessivamente, até que o último colocado recebe no total, exatamente a metade do que o primeiro recebeu. Sem depender das televisões, os clubes passaram a explorar a bilheteria, venda de produtos oficiais, e principalmente a venda de naming rights (batismo do nome dos estádios) além de espaços de publicidade nas camisas. Com um campeonato mais equilibrado mais estruturado e apresentando uma melhor qualidade no jogo, a média de público da Bundesliga explodiu para 45 mil pessoas por jogo, simplesmente a melhor da Europa.

A fanática torcida do Borussia seguiu a risca o ditado de casamento com o clube “na saúde e na doença, na riqueza ou na pobreza, até que a morte os separe” e sempre esteve ao lado do aurinegro. Com o novo modelo de gestão do futebol alemão e do Dortmund, estabelecidos por Rauball, o preço do ingresso para a geral (setor popular de 20 mil lugares que não tem cadeiras) caiu para 11 euros, e a média do time passou a ser a melhor do mundo. Dos 85.900 lugares do Signal Iduna Park 85.500 estão sempre preenchidos, e beira os 99% de ocupação de seu estádio.

A política de contratar barato e formar jogadores demorou a vingar, e após campanhas medianas dentro de campo, mas corretas financeiramente, o Borussia conquistou a Bundesliga em 2010/2011 e 2011/2012. Os títulos, colocaram os jogadores do Dortmund na vitrine do futebol Europeu, e a saída das principais estrelas foi iminente.

(Fotos: Divulgação / Montagem: Flavio Darin) Dados: transfermarkt

(Fotos: Divulgação / Arte: Flavio Darin/Jornaleiros)
Dados: transfermarkt

Com a “saúde” financeira se recuperando gradativamente, o Borussia vai se reerguendo, e a dívida que já foi de mais de 200 milhões de Euros, no início desta temporada estava em “apenas” 40 milhões,  com as premiações obtidas na UCL (Uefa Champions League), e a incrível valorização do seu elenco , o Borussia pode pela primeira vez em quase 15 anos fechar o ano fora do vermelho, e quem sabe encerrar a fase mais difícil de sua história, do jeito que começou, com a taça orelhuda na sua sala de troféus.

(Fotos: Divulgação / Montagem: Flávio Darin) Dados: transfermarkt

(Fotos: Divulgação / Arte: Flávio Darin/Jornaleiros)
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Publicado em 30 de abril de 2013, em Campeonato Alemão 12/13, Champions League 12/13, Especiais, Futebol Internacional e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Nicholas Ormeneze

    Muito bom, continue com o bom trabalho!! Varios detalhes interessantes, como a valorização dos jogadores.

  2. Parabéns pelo texto super completo.
    Dá vontade de virar sócio torcedor do Borussia.
    parabéns.

  3. André Paulo Reis

    Bela matéria!
    Lá na primeira linha tem um “a” que na verdade é “há”.

    abs!

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