Opinião: O potencial futebolístico catarinense


por Paulo Semicek

O futebol de Santa Catarina vive um momento de ápice no cenário nacional. Pode parecer pouco ter apenas um time, o Criciúma, na Série A do Brasileirão, e outros quatro na Série B (Avaí, Figueirense, Joinville e Chapecoense), quando a comparação é com paulistas, cariocas, gaúchos e mineiros. Mas, em uma visão mais ampla, o momento dos catarinenses mostra um potencial de crescimento invejável.

Santa Catarina tem uma equipe na Série A e quatro na Série B (Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma EC)

Santa Catarina tem uma equipe na Série A e quatro na Série B (Foto: Fernando Ribeiro/Criciúma EC)

Tigre da elite

Comecemos pelo Criciúma. Campeão da Copa do Brasil de 1991 e com boa campanha na Libertadores do ano seguinte, o Tigre ganhou uma projeção nacional que nenhum time catarinense havia conseguido, feito que até hoje não foi batido. Esses resultados atraíram a população da cidade, conhecida pela força de suas indústrias, principalmente de carvão. Foi esse salto que fez a torcida aguentar os altos e baixos entre Séries B e C nos anos 2000, e dar condições para uma nova mentalidade de gestão, que tornou o clube forte o suficiente para figurar na Série A, após quase uma década fora.

Tigre ressurgiu no ano passado e voltou para a elite do futebol brasileiro (Foto: Agência Photocamera)

Tigre ressurgiu no ano passado e voltou para a elite do futebol brasileiro (Foto: Agência Photocamera)

Mas é na Série B que se percebe a força do atual futebol catarinense. Se o torneio acabasse hoje, Figueirense, Chapecoense, Avaí e Joinville, nessa ordem, seriam os classificados. Cedo para cravar todos como favoritos (Palmeiras, Sport e outros times certamente entrarão nessa briga), mas todos os quatro mostram qualidades para lutar pela elite até o fim. 

O Oeste que ressurge

A ascensão mais notável vem dos times do interior. A Chapecoense é o time mais tradicional da região oeste do Estado, mas o título estadual de 77, que o levou à Série A nos dois seguintes, se perdeu no tempo. Dívidas e a crise no início dos anos 2000 levaram a uma parceria que mudou a personalidade jurídica e o livrou o clube da crise financeira.

Chapecoense é o time que mais cresce no Estado (Foto: Aguante Comunicação)

Chapecoense é o time que mais cresce no Estado (Foto: Aguante Comunicação)

Com uma estrutura mais reforçada, veio o título estadual de 2007 e de 2011, e a afirmação como uma força definitiva no futebol do Estado. Bastou a manutenção de uma base e a transformação do Estádio Índio Condá em arena para que a Chape ascendesse da Série D para a C, e no ano seguinte da C para a B. O elenco é o mesmo do ano passado, com a equipe vice-campeã catarinense e atual 2°colocada na Série B.

A estrutura de Joinville

O Joinville tem uma trajetória diferente do rival alviverde. Primeiro aprimorou sua estrutura, para depois os resultados aparecerem. O fôlego do clube logo após sua fundação, em 1976, é espetacular; tirando os anos de 77 e 86, o JEC ganhou todos os estaduais até 1987.

Histórico vencedor e estádio moderno dão força ao JEC (Divulgação/Joinville EC)

Histórico vencedor e estádio moderno dão força ao JEC (Divulgação/Joinville EC)

Mas o time decaiu nos anos 90, e   só voltou a ser uma grande força com o título da Série C de 2011, mas já tendo a excelente estrutura da Arena Joinville, construída em 2004 e ampliada para a capacidade atual em 2007. Ano passado, o JEC só deixou a briga pela Série A há poucas rodadas do fim. Outro destaque foi a revelação do meia Ramires, atualmente no Chelsea.

Floripa enfraquecida?

Embora os times do interior tenham seus momentos de auge ao longo da história, os da capital sempre conseguiram, até de forma “revezada”, se manter na elite nacional no século XXI. As melhores campanhas catarinenses na Série A são de Avaí (6°/2009) e Figueirense (6°/2006), isso sem contar as boas campanhas na Copa do Brasil; o Figueira foi finalista em 2007 e o Leão da Ilha semifinalista em 2011. O ápice do futebol de Florianópolis foi em 2011, com os dois times na Série A, mas essa força durou pouco, e parece não ser a mesma de outrora. 

Avaí perdeu sua força há algumas temporadas (Foto: Divulgação/Avaí)

Avaí perdeu sua força há algumas temporadas (Foto: Divulgação/Avaí)

O Avaí decaiu aos poucos, e hoje está na Série B, esboçando reação com nomes carimbados (Marquinhos e Cleber Santana). O Figueirense sofreu demais com o desmanche da equipe 7°colocada em 2011, que tinha Wellington Nem, os laterais Bruno e Juninho, além do zagueiro Edson Silva como principais destaques. Todos os citados foram para equipes grandes brasileiras, e o enfraquecimento fez o Furacão do Estreito voltar à Série B este ano.

Figueirense tenta avistar a Série A novamente (Foto: Divulgação/ Figueirense)

Figueirense tenta avistar a Série A novamente (Foto: Divulgação/ Figueirense)

O ”segredo” catarina

Analisando os Estados com times considerados “médios” do futebol brasileiro, Santa Catarina tem um grande potencial com cinco times de expressão nas Séries A e B. Nessa conta, os catarinenses superam Paraná (3), Goiás (2), Pernambuco (3), Bahia (2) e até mesmo Minas Gerais (4) e Rio Grande do Sul (2). Vamos tirar da lista mineiros e gaúchos, pois historicamente ambos estão em um patamar acima dos demais, junto com paulistas e cariocas. Ter mais times em condições de competir na elite é uma vantagem de que paranaenses, goianos e os nordestinos não possuem.

Outro ponto a favor dos “catarinas” é a distruibuição geográfica dos times, fato que condiz com a característica descentralizadora do Estado. Florianópolis pode ser a capital, mas as indústrias mais prósperas estão no Norte (região de Joinville) e no Sul (região de Criciúma), e a agricultura do Oeste (região de Chapecó). Outras praças esportivas tradicionais também estão em regiões de destaque, como Blumenau (com o antigo BEC e o atual Metropolitano) e Itajaí (com o Marcílio Dias).

Essa descentralização da economia catarinense reflete diretamente no futebol. O primeiro presidente do Joinville foi João Hansen, executivo da empresa de tubos e conexões Tigre, instalada na cidade. Por muito tempo, o JEC teve o apoio da empresa. O mesmo ocorre com a Chapecoense, que tem como principal patrocinadora a cooperativa de alimentos Aurora, fundada na região. Em Criciúma, a indústria de carvão e a alimentícia Seara patrocinam o Tigre. 

Em Floripa, o investimento é mais variado. Embora os patrocinadores locais tenham espaço, a Caixa Econômica Federal é a patrocinadora de ambos. A saída foi buscar parcerias com empresários; o Avaí mantém a sua com a LA Sports, enquanto até 2010 o Figueirense era parceira da Figueirense Participações.

O campeonato equilibrado

Com os times fortes espalhados pelo Estado, o campeonato catarinense ganhou um equilíbrio que é raro em competições desse nível no Brasil. Para se ter uma ideia, há 22 anos não existe um tricampeão, desde o feito do Criciúma (89/90/91).  Se a qualidade em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul é maior, Santa Catarina compensa com esse equilíbrio, e uma fórmula estadual de disputa interessante (os dois campeões de turno enfrentam os dois melhores na classificação geral, em semifinais e final). 

O que falta para Santa Catarina ser grande?

A resposta é uma combinação de dois fatores: estrutura e mentalidade vencedora. Somente o apoio de empresários locais e uma torcida atuante não bastam, se a estrutura oferecida não for mais vantajosa do que em outros lugares. Isso começa a mudar quando Joinville e Chapecoense jogam em arenas modernas (a Chape ainda precisa evoluir nessa parte), mas Avaí, Figueirense e Criciúma ainda precisam melhorar seus centros de treinamento e estádios. Com isso, o jogador que vem de fora tem um bom motivo para jogar em SC, além da qualidade das cidades, todas elas com bons índices de desenvolvimento.

Wellington Nem veio do Fluminense para o Figueira, e voltou para o Rio um ano depois (Foto: R7.com)

Wellington Nem veio do Fluminense para o Figueira, e voltou para o Rio um ano depois (Foto: R7.com)

Mas há também outro fator ainda mais decisivo em que os catarinenses precisam investir: a mentalidade vencedora. Isso consiste primeiro em ter uma categoria de base forte, algo que está em falta. O Figueirense foi campeão da Copa São Paulo de 2008, mas nenhum garoto daquele grupo emplacou no cenário nacional. Como a base não está ajudando tanto, a saída tem sido buscar nomes desconhecidos ou já rodados dos grandes clubes, que não estão em alto nível. Com isso, os clubes ficam dependentes do que vem de fora, e quando o elenco vai bem, não há força para manter a base para o ano seguinte.

Quando os catarinenses criarem uma estrutura que forme seus talentos e tenha poder para segurá-los e ainda reforçar os elencos, o Estado ganha um poder no futebol nacional sem precedentes. É bom aguardar para ver.

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Publicado em 4 de junho de 2013, em Especiais, Futebol Nacional e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Parabéns por abordar sobre o futebol catarinense, Paulo. É sabido que a mídia tem seus olhos voltados aos maiores patrocinadores, os quais distribuem seus milhões na região sudeste. No caso da minha cidade, Joinville, temos o maior potencial industrial e o maior PIB do estado, no entanto, as empresas instaladas aqui desacreditaram no futebol local, concentraram suas estratégias de marketing em outros esportes, ditos mais “baratos”. O JEC ressurgiu há três anos, quando saltou da extinta série D do campeonato brasileiro para as primeiras posições da série B no ano passado. Acredito que deve partir da iniciativa privada local (e forte) patrocinar o Joinville Esporte Clube, assim teremos subsídio para melhorar a condição técnica, estrutural e cultural do empresário joinvilense.

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