Uma tarde de professor


por Leonardo Siqueira

O jornaleiro Leonardo Siqueira foi árbitro de futebol americano na partida entre Maringá Pyros e Londrina Barons. Confira como foi.

A partida entre Barons e Pyros, realizada em Londrina. (Foto: Divulgação/Barons)

A partida entre Barons e Pyros, realizada em Londrina. (Foto: Divulgação/Barons)

“Com licença, professor. O senhor pode me tirar uma dúvida?” Essa foi, talvez, uma das frases que mais ouvi nesse domingo (27 de julho de 2013), ao apitar o primeiro jogo full-pads de Londrina, entre Maringá Pyros e Londrina Barons. É estranho ser tratado assim. Não sou árbitro federado e não tenho permissão da FPFA para arbitrar em jogos oficiais, mas como era apenas um amistoso fui convidado pelo árbitro Fábio Burlinski para ir à Londrina.

Saímos as 5 e meia da manhã da capital para enfrentar 5 horas de viagem até o norte do estado. Almoçamos e nos dirigimos ao local onde seria o jogo. Fomos muito bem recebidos pelos atletas do Barons. Todos de muito bom humor, ansiosos pela partida. Para quem pratica o esporte ou o apoia no Brasil, essa é uma das melhores sensações. Pelo menos para mim, é.

Não existe vestiário, não existe separação entre os jogadores todos ficam ali, na beira do gramado, vestindo o uniforme, conversando sobre o jogo. Comentários sobre “Imagina fazer aquele TD no fim?” e “Cara, to vendo você interceptar uma bola igual aquele treino, lembra?” além do clássico “Vou fazer um TD e dedicar pra minha namorada. Talvez assim ela não encha mais meu saco para eu parar de jogar!”.

Devido ao atraso da ambulância, o jogo demorou um pouco mais a começar. O que era nervosismo se tornou tensão e sorrisos saíram de cena para dar lugar a uma expressão de concentração. Não era por menos, levando em conta a ansiedade dos envolvidos. Não havia muitas pessoas para assistir a partida. Ali presentes estavam apenas os familiares, namoradas e jogadores de outros times, que dava certo clima caseiro à partida.

Sofri um pouco no começo. Existe uma linha muito distante entre conhecer as regras e aplicá-las em campo, principalmente quando você se encontra no meio da sideline de um dos times. Confesso que deve ter deixado de marcar um ou outro offside, para ambas as equipes, por “medo” de errar. Acabei errando, é fato. Acertei ao marcar um horse collar e uma facemask, efusivamente indicada por um dos capitães do Barons que, quando me viu lançar a flag me pediu desculpas algumas vezes, talvez com medo de tomar uma falta pessoal.

O jogo teve várias situações inusitadas, que rendem histórias para outros textos. Desde jogador ter que ser retirado de campo por ter consumido bebidas alcoólicas antes do início da partida até um jogador que comemorou uma conversão de 2 pontos sem saber que, na verdade, não tinha ainda entrado na end zone.

Já estávamos no 2-minute warning quando a equipe do Barons virou o jogo, deixando o placar em 32 a 27. Faltava pouco para o fim do jogo, mas o Pyros não se entregou. Algumas faltas atrapalharam a defesa do time da casa e, faltando 8 segundos para o fim da partida, o Pyros anotou outro TD. 33 x 32. Acho que nunca vou esquecer. A equipe do Barons, desesperada, tentava fazer com que nós, árbitros, “víssemos” o mesmo que eles: um bloqueio ilegal. Nos reunimos, conversamos… mas realmente, não vimos falta no lance. A gravação de uma pessoa na arquibancada nos fez ver depois que, de fato, não havia sido falta.

Passada a euforia do lance, e dado o fim da partida, a equipe do Barons tomou a atitude certa, exaltando a forma como a equipe jogou. Alguns jogadores de ambas as equipes nos agradeceram. No fim das contas, o clima foi de união entre os atletas. Todos se abraçaram e comentaram lances do jogo, com a mesma alegria de que quando estavam ainda se arrumando para a partida. Essa a imagem do futebol americano no país. Disputa grande dentro de campo e confraternização fora. Afinal de contas, a vasta maioria dos atletas paga para praticar o esporte. Compra equipamentos importados, suplementos, faz uniformes, tudo isso sem receber um tostão. No geral, fica um clima de fraternidade, onde todos estão unidos pela causa do esporte.

E onde entra a função do árbitro? Não importa quantos acertos você tenha durante a partida, um único erro fará com que você escute (e muito) as reclamações. Mas isso não é ruim, muito pelo contrário. Ser árbitro é tão fundamental quanto ser jogador, e sofrer com as reclamações faz parte do jogo. No futebol americano, mais que em qualquer outro esporte, essa função é necessária inclusive na pratica amadora. Nessa onda de profissionalização do esporte, é importante que, além dos jogadores, os árbitros busquem melhorar cada vez mais. E eu que fui chamado de “professor” a tarde toda tive experiência de aluno.

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Publicado em 31 de julho de 2013, em FA Brasileiro e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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