MoneyFootball, a história do Freiburg de Volker Finke


por Flávio Darin

A história de Billy Beane, o general maneger do Oakland A´s, time de baseball da MLB (Major League Baseball) ficou conhecida em todo o mundo depois do filme Moneyball, estrelado por Brad Pitt.

A postura do dirigente que fazia contratações com um orçamento limitado levando em consideração gráficos e números, chocou o mundo das grandes ligas americanas no começo da década de 2000. Principalmente porque Beane conseguiu provar que sua teoria dava resultados, em 2002 o A´s foi o primeiro time em 100 anos de história da MLB a conquistar 20 vitórias de maneira consecutiva.

Brad Pitt viveu Billy Beane no cinema em Moneball, o homem que virou o jogo (Foto: Divulgação)

Brad Pitt viveu Billy Beane no cinema em Moneball, o homem que virou o jogo (Foto: Divulgação)

Mas o que pouca gente sabe é que o Moneyball já tinha sido inventado 10 anos antes, do outro lado do mundo, na Alemanha.

O Freiburg sempre foi um time de pouca expressão na Alemanha. Frequentou por muitos anos a terceira e a segunda divisão da Bundesliga, e o mais próximo que tinha conseguido chegar da elite foi um quinto lugar.

Com orçamento baixo e sem muitas possibilidades, o clube resolveu na temporada 91/92 investir em um professor de matemática para a função de técnico. Volker Finke não era inexperiente, já era funcionário do clube, mas só tinha treinado os times de vôlei e de tênis de mesa do Freiburg.

Volker Finke (dir.) chegou na temporada de 91/92 e se tornou um grande amigo do presidente do Freiburg (esq.) (Foto:

Volker Finke (dir.) chegou na temporada de 91/92 e se tornou um grande amigo do presidente do Freiburg Achin Stocker (esq.) (Foto: Badische Zeitung)

A torcida do time do sul da Alemanha já estava sem grandes esperanças após ver o time da última temporada mais uma vez ser desfeito. A primeira missão de Finke era então montar um novo elenco, mas a Alemanha vivia um momento político conturbado após a reunificação, com isso, jogadores estrangeiros eram raros no país, e os talentos locais jogavam nos clubes maiores como o Bayern e o Borussia Dortmund.

Na primeira temporada 20 nomes chegaram ao time, mas o resultado não veio, e o time não conseguiu o acesso. Um ano mais tarde, na sétima rodada o Freiburg assumiu a liderança da segunda divisão alemã e ali permaneceu pelas 39 rodadas seguintes, até conquistar o título e o inédito acesso para a elite alemã.

A impressionante campanha do time alvinegro, era cercada de mistérios. A equipe tinha marcado 102 gols em 46 jogos, 20 tentos a mais do que o time que tinha segundo melhor ataque. Mas, curiosamente o Freiburg não tinha nenhum jogador entre os artilheiros da competição. Altin Kraklil, atacante albanês e completo desconhecido de todos, tinha sido o maior marcador da equipe com apenas 16 gols.

Os números, que aparentemente não faziam sentido, no fim das contas revelaram que Finke era diferente. No seu time todos marcavam gols, assim como todos defendiam, não existiam líderes, referências ou estrelas. Uwe Spies, centroavante do Freiburg era por exemplo o jogador que mais dava assistências, e poucos gols fazia.

Mais do que peças, Finke desenvolveu um sistema de jogo, que contava com jogadores que não tinham posições fixas, além de treinos de visão periférica, marcação por pressão no campo do adversário, um ataque que mudava de direção a todo momento, e principalmente a constante troca de passes e a marcação por zona que acabaram sendo a marca registrada do treinador. O que o Freiburg mostrava em campo era diferente de tudo que se já se tinha visto na Alemanha, e apenas visto no Milan do final dos anos 80 comandado por Arrigo Sacchi.

A semelhança com o Milan de Sacchi no entanto, ficava apenas na parte teórica, afinal de contas o humilde treinador alemão não tinha em seu elenco Rudd Gulitt, Marco Van Basten, Paolo Maldini ou Frank Rijkaard.

Na temporada seguinte o desafio era ainda maior, Finke teria que provar que suas táticas mirabolantes funcionariam contra os grandes do país, e que o seu trabalho era mais do que apenas sorte. Nas três primeiras temporadas o Freiburg não perdeu jogando como mandante, e no seu estádio protagonizou jogos históricos como o 5 a 1 sobre o Bayern de Munique de Oliver Kahn e Lothar Matthäus. Como se não bastasse, Finke classificou o time para a Copa da UEFA de 1995, um fato inimaginável para um time que não contava com jogadores caros e badalados.

A história do Freiburg se assemelha ainda mais com o Moneyball de Billy Beanne, citado no início do texto, quando falamos do presidente do time alemão, Achin Stocker, assim como o personagem de Brad Pitt, não conseguia assistir as partidas, e apenas ouvia os jogos no rádio, ou lia as resenhas dos jogos através dos jornais.

Após os anos de glória o time mais uma vez se desfez, Finke demorou à achar os substitutos ideais e o Freiburg caiu para a segunda divisão em 97.

O desafio de encarar a série B era ainda maior agora. A formula do sucesso do Freiburg já era conhecida, e muitos dos ensinamentos de Finke foram absorvidos pelos clubes alemães. Prova disso foram os títulos da Champions League do Borussia Dortmund em 96/97 e do Bayern de Munique 00/01.

Mais uma vez Finke garimpou. Foi buscar jogadores em Mali, Geórgia, Tunísia e achou o grupo ideal mais uma vez. Na temporada seguinte ao descenso, o Freiburg voltou a elite.

Em 2001, voltou a Copa da UEFA, mas em 2005 retornou para a segundona. Em 2006/07, em 16º lugar e com uma eminente terceira divisão no seu caminho, o Freiburg anunciou que Finke deixaria o clube ao final daquela temporada.

A partir do comunicado do clube, o que se viu foi uma comoção dentro e fora de campo. Jogadores faziam gols e mostravam a mensagem “Wir Sind Finke!” que significa “Somos Finke”.

A idolatria de Fink em Freiburg permanece até hoje (Foto: DW Sport)

A idolatria de Fink em Freiburg permanece até hoje (Foto: DW Sport)

O Freiburg começou a ganhar, vencer, e subir na tabela. O time não só deixou o risco de rebaixamento como passou a brigar pelo acesso. No final o time acabou empatado com o Duisburg na terceira colocação, mas perdeu nos critérios de desempate e continuou na série B.

A campanha ainda assim foi histórica, registrando o melhor desempenho de um time no returno do campeonato em toda a história de todas as divisões da Alemanha.

Volker Finke saiu do Freiburg em 2007 não do jeito que desejava, mas definitivamente marcou o seu nome na história do clube e do futebol alemão.

Legado: No ano que o Freiburg caiu, em 97, também no sul da Alemanha, a poucos quilômetros dali, surgiu o maior discípulo de Finke. O jovem Joachim Löw comandou o Stuttgart na conquista da Copa da Alemanha, e no ano seguinte levou o time até a final da Copa da UEFA. Hoje Löw é o comandante da seleção alemã, e um dos responsáveis pela mudança de mentalidade na seleção nacional. Depois dos fiascos da Copa da França em 98 e da Euro em 2000, quando a Alemanha foi a pior seleção do torneio, algo precisava ser feito, afinal de contas, dali há 6 anos o país seria sede da Copa do Mundo. Se a geração de Ballack não foi brilhante, inegavelmente foi competitiva. Mas a seleção que encheu a Alemanha de orgulho em 2006 tinha pilares importantes como Kahn, Klose e Ballack. Hoje, o time de Löw tem a cara de Finke, sem líderes, sem titulares absolutos, sem estrelas egocêntricas. O que se vê em campo é muita juventude, troca de passes, variações de jogo e um futebol pra lá de moderno, algo que com toda a certeza orgulha e muito, Volker Finke.

Atualmente Finke é o técnico da Seleção de Camarões, e luta para trazer os Leões Indomáveis ao Mundial do Brasil no ano que vem. A seleção de Eto’o e companhia é a segunda colocada do grupo I das eliminatórias africanas, mas depende só de si para se classificar para a próxima fase das eliminatórias, quando se define quais são os países classificados para a Copa.

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Publicado em 21 de agosto de 2013, em Especiais e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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